sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Engano - quem nunca?

Seus olhos
pararam nos meus, senti

Seus poros,
seus pelos,
Seus dedos
Nos meus, enroscados.
Sempre, dizia.

Seu corpo esguio,
rabiscado no meu.

Sua boca
na minha
pressa, fome,
calor, tensão.
Insaciável seria, sabia.

Entrelaçadas mentes,
as almas, pareciam.

Muda o tempo, passa.
Mundo que gira.
O ano que corre,
e mais um
e um mais.

Eu, errada, 
enganada, cega. 

Percebo, em fim,
as cores reais, banais.
Perfume barato, 
reles, mortal.
Eloquência, carência.

Vale de gentes,
mais gentes, final.

(plenamente) saciada,
de você,
quero não mais,
nem corpo, nem boca, nem mãos.
Menos ainda, alma.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Carta para Luis








Querido Luis,

Venho pedir-te desculpas por algo que ainda farei. Maldito aquele que ousa pecar, conhecendo a natureza pecaminosa do ato que ainda será praticado, e ainda assim, o faz.

Sei que te entristeço, Luis. Mas é afim de evitar piores cenas que me adianto.

Teus olhos trazem-me a lembrança da calmaria, das águas tranquilas das praias do nosso sudeste, traduzindo o ideal do mar sem onda que reflete o Sol.

Amo cada palavra que sai de teus olhos quando me fitam e também a luz dos teus lábios quando me beijam. Amo teu sorriso, aliás! Ah, amo, sim! Seu toque suave me acariciando, cheio de vontades de se aprofundar!

Lembro-me de quando acordava nas manhãs mornas e olhava-te quieto, sereno. Estavas tão feliz e calmo, enquanto eu encarava o mundo, querendo mais. E tu, que não me entendias, achavas graça. E eu, que te assistia, achava graça de tu achando graça, Luis, mas lá no fundo, me sentia triste e sozinha. Tu não compartilhavas da minha angústia. Quiçá a enxergava.

Recordas-te do dia em que assistimos ao espetáculo de circo aberto? Tu pegaste-me as mãos. Abraçaste-me carinhosamente, lembras? Naquele momento, vi nos teus olhos seu desejo de permanecer, mas vi também que éramos deveras diferentes. Amavas minha companhia, meu eu, meu tudo que acreditava ser. Sentamo-nos e deixamos nossas mãos entrelaçadas. Fitei-as várias vezes, decifrando nossos dedos. Minha inquietude não se harmonizava com sua paz. Corri, lembras? Não com meus pés, mas com minha mente.

Corri e ainda corro de ti, que parece ser atraído por mim, esteja onde eu estiver e seja lá quem fores. E nessa carta, tento mais uma vez te explicar!

Hoje te reencontrei, Luís. Depois de quase duas décadas, te reencontrei. Tua história tomou o rumo que já imaginávamos: uma vida incrivelmente correta. Te invejei, viu? Invejei quem vive em tua companhia, quem tem teus cuidados, quem cuida de ti. Invejei tua paz e tua harmonia. Deve ser tão bom dormir com teu beijo de boa noite e acordar com teu sorriso de bom dia!

Ah, Luis! Se eu soubesse, teria feito tudo diferente. Se eu soubesse que assim seria e se eu soubesse fazer, aliás. Ainda em nossa adolescência, teria me acalmado e ficado. Em verdade, teria tentado. Mas nós dois sabemos – como conversamos outrora, que não teríamos conseguido. Pedi desculpas por ser que sou e me disseste, com tua paz celeste, que se eu fosse calmaria como tu, nunca terias te encantado. Vivendo apenas alguns meses juntos, duramos uma vida inteira em nossos corações. Tomamos a melhor decisão, não foi?

Ah, perdoa-me, Luis! Não falo de ti, exatamente. Vês a confusão? Queria muito!

Queria muito permanecer ao teu lado e navegar pelas águas tranquilas do teu coração, mas nos afogaríamos nelas, cedo ou tarde. Percebes que eu cometeria o mesmo erro?

Não posso ancorar-me em ti.

Perdoa minha audácia em pressentir nossa catástrofe a esmo. Posso não saber como será, mas sei já como sou.

Quando me abraçavas docemente, Luis, tenho que te contar, eu sentia minha carne gritar. Correspondia ao teu sorriso, mas sentia no fundo de mim, um pesar. Tua cama era prisão e teus sonhos não eram meus. Ano após ano, esperei ansiosamente pela oportunidade de fugir. Até que consegui.

Perdoa-me, mas quero não mais errar.

Hoje, me reapareces! Não desistes, Luis? Meu peito se enche de esperanças e minha alma sorri ao te (re)ver. Minhas células já conversam com as tuas e me mostram o caminho a seguir, segurando tuas mãos! Mas me falta ar, entende? Essas células engoliram contos de fadas e ainda insistem em acreditar que apenas o outro nos completará – tolices que aprendi a superar. Não percebem que somos todos perfeitos em nossas imperfeições?

Após anos, aprendi a aceitá-lo, na imensidão do mundo. Aprendi a respeitá-lo, estável e lisonjeiro. Espelhei-me em ti. Amei teu jeito, teu juízo, teus defeitos. Mas, meu amor, eu ainda existia em mim e amá-lo e respeitá-lo não me fazia ser tu. Aceitando-te assim, lindo como és, como parte de mim, guerreava com minha própria paz de turbilhão. Sim, existem estados de paz que são naturalmente agitados. O meu é assim. Mal caibo em mim!

Minha intensidade não me doa felicidade assim, de graça. Tenho que sentir meu coração pulsar, e não somente bater compassadamente. Se está harmoniosamente ritmado, então eu me amorno, me acomodo e vou sobrevivendo, sem vida. Ah, Luis, foram tantos anos pra conhecer esse pouquinho de mim! Tenho que me respeitar!

Preciso do meu peito tamborilando, com águas profundas de trégua alternadas com ondas intensas, em que minha pressão arterial chega aos céus pelas energias que atravessam minhas veias. Tu não precisas disso – evita.

Dizem que no final, se acostuma e se aprende a amar. Amar não só o objeto – porque te amo, de verdade – mas amar o verbo, o estar ao lado, o viver junto, a cumplicidade, a parceria, a unidade (também em verbos). Mas, Luis, não quero me acostumar, nem aprender a te sentir ou a me satisfazer com tua brisa. Sou fogo, meu amor, e fogo só se acalma, sem morrer, com fogo.

Fizemos uma vida, meu querido. Linda vida, feita de nós, por nós. Pensávamos que nos uniria, aquela vida. Que seria a ponte do diálogo que nao tínhamos - não porque não conversávamos, mas porque eram línguas diferentes, as nossas. Podemos dizer que tentamos, Luis. Entenda e aceita. Vá e não volte mais.

Passa, Luis. Passa e me deixa ficar. Não me procures mais, disfarçando-te em outros olhos. Não sou como acreditas. A calmaria que vês em mim, em verdade, é conquista diária. Esse equilíbrio que te atrai é fruto de muito, muito suor. Não sou eu; é o que me proponho ser. Por isso, de tempos em tempos, meu querido, mergulho em mim mesma, em minhas profundezas mais angustiantes e atormentadas do meu ser. É quando me fecho e teu toque me dá repulsa. Sinto, nesses momentos, que estou em mar aberto em plena terra firme que és. Estes momentos não são poucos, meu amor. Sou triste, então.

Tomarei outro rumo, mudarei de calçada. O que preciso, tu não tens – graças a Deus, agradeça também! Essa incontinência, essa insensatez que me move, tu não tens. E não me compreenderias, infelicitando-te dia após dia.

Ancorar em tuas calmas águas seria trazer para tua praia, enchente. Tu não suportarias, ou suportarias chorando todos os dias. E eu, que teria permitido tudo conscientemente, choraria ainda mais, culpada. Na turbidez de minhas águas, eu certamente me afogaria, te afogando comigo.

Tu combinas com vida linda, perene e equilibrada. Viverás cada dia com a graça da rotina, sem tremores nem temores. Terás outros filhos lindos, Luis. Terás um casamento dos sonhos, com uma pessoa tão certa quanto tu, e não tão fora da curva, como eu. Serás feliz pelo simples acordar. Não sei somente sobreviver e isso você faz, magistralmente.

Eu queria ser assim, sabe? Queria, mesmo! Juro! Eu queria ser mais amena, mais conformada, satisfeita. E minhas buscas se findariam em ti!

Me sentarei nesse cais e meditarei, Luis. Se nenhuma onda me arrastar, aqui permanecerei até o dia último, ainda que só. Esse é o compromisso que firmei comigo, depois do último naufrágio: nunca mais cair na deliciosa tentação de me ancorar. Essa é minha natureza: viver em alto mar.

Se um dia – queira Deus! – eu reconhecer em alguém igual energia minha, acredito que ele também me reconhecerá e, mesmo que embaixo duma tempestade, viveremos uma real sinergia.

Nos daremos as mãos e sairemos a conquistar não só os mares que se nos apresentarem, como os céus e as terras também.

Navegaremos, juntos, numa busca incessante pelo inalcançável, que é a vida em sua mais perfeita plenitude, resumindo seu sentido no próprio navegar.

Te tranquiliza, meu caro! Pacifica teus desejos. Exercita tua paciência e espera o certo. No final, a gente sempre sobrevive!

Acontece, Luis, que meu destino é viver!

terça-feira, 23 de janeiro de 2018


Bia tinha uma tendência estranha de sempre desaparecer pelo outro, permitindo-o surgir em sua mais ousada pose e caminhar linearmente em sua egoística vida. O outro aumentava, se traduzia, se moldava, enquanto Bia servia, assistia, se adequava. Ao final de tempos, ela ganhava transparência, se tornando invisível, até que lhe restava tão somente a sombra do outro, misturado com sua sobra.

Inesperadamente, Leo surgiu. Apareceu para Bia, como mato que brota, sem ninguém plantar. Tão fugaz, que não lhe deu tempo para que deixasse de ser Bia, para que se adequasse e lhe lhe servisse. Tão repentino, que não deu a ela subsídios para entender do que ele precisaria para ficar. Tão urgente que sequer cogitaram pousar ou transitar. Apenas eram.

Leo servia de si para si – parece (Bia não teve tempo, repito, também, de analisar se ele era como erva daninha ou se (lhe) traria flor). Com ele, que não precisava nem pretendia, podendo ser, Bia era. Era sujeito, vontades e ação. Bia era afirmativa e negação. Era cheiros, gostos, sentidos, prazeres. Era objeto – porque assim queria, e não porque tinha que ser (a diferença é tênue, mas fundamental).

O perecível é o complemento que os deixavam ser quem quisessem – Bia e Leo, sem o “dever ser” de coisa alguma, nem mesmo eles em essência. Nenhuma tentativa vã de trocas com intenções diversas do mero desejo de darem e receberem sorrisos e suspiros gratuitos. A gratuidade era o presente e o presente era graça. O amanhã era esquecido, sem a obrigação de tornar perene, o hoje.
  
A fugacidade é grito. É presença e é ausência. É o ponteiro que se move imperceptível. É ligeiro a ponto de doer; mas é também a ponto de flutuar, leve. Leo trazia para Bia – e Bia para Leo – o negativo do “dever ser” e sua lascividade imperiosamente excitante.

Inexistindo o amanhã, apenas não existirá o que nunca existiu, e Bia sentia-se abraçada por esse incontrolável nada. Percebendo a transitoriedade de Leo, Bia quis o hoje. Quis o hoje mortal, dia após dia. A eternidade, tão natural em Bia, calou-se.

Fenômeno tão inexistente quanto o tempo, Leo sublimava sua própria existência. Quis a morte do hoje e sua reaparição amanhã. Amanhã, não. Outro dia. Fosse quando fosse, sabia, queria, quereria e não se resignaria. O tempo não o intimidava - tinham a mesma natureza volátil, irrequieto e envolvente.

Uma realidade paralela, ilimitada e interrogativa os cercou e a transigência entre eles tornou perene seus agoras – incontáveis – ainda que em pensamento e energia.


E assim, não sendo obrigados, o futuro também não. 

domingo, 14 de janeiro de 2018

José suspirou, aliviado. Fechou os olhos e relembrou o momento insano, em que Ana estendeu os braços e subiu, rumo à lua. Viu seus pés saindo do chão. Viu seu corpo magro volitar. Viu seu vestido vermelho bailando no ar. Se lhe contassem, ele mesmo nao acreditaria. Mas viu.

Bastou aquele momento para entender que mágicas não existem. O universo não conversa por sinais. Os seres humanos nao seguem regras naturais.

Entendeu que afinidades não movem pessoas. Que atração física é mera carne. Que as borboletas no estômago sao apenas criação de gente que as alimenta.

Ao ver Ana partir, José ficou um pouco mais cético. Aquela primeira foto que viu dela, antes de conhece-la, em que a reconheceu de algum lugar, era só sua alma tramando com a alma dela um atalho para se encontrarem. E nada mais.

Ana subiu. Subiu tanto que, em dado momento, desapareceu. José vestiu sua blusa, colocou seu chapéu e voltou a ser um mero mortal, mal protagonizando, agora, sua própria vida.

Um dia, viu um clarão no céu. Imaginou ser Ana e olhou para cima, sem perceber que a calçada terminava e começava a rua. Assim Ana magicamente o reencontrou, em algum lugar desse mudo universo, que não aqui.

(02.01.18)
Ana chegou. José a guardava, ansioso. Ela o procuraria a qualquer momento. Olhava o celular a cada minuto. Bisbilhotava o celular inutilmente, a cada minuto. Ela nao o procurara.

José compreendeu que tudo estava terminado. Olhou para sua vida e sorriu. Tinha tudo. Estava bem acompanhado de quem, até ontem acreditava ser o amor de sua vida. Mas o que, então, o incomodava? Por que a indiferença de Ana o angustiava? Fechou os olhos, respirou fundo.

Em sua caminhada na praia, passou por ela. Nao tinha certeza, mas parecia ser ela. Volveu o caminho para confirmar. Ela estava mais linda do que nunca. Sentiu-se sufocar.
Celular nas maos, a chamou. Ela sorriu. Acenou com a educação de quem nao sente.


Acabou, percebeu José. Por hoje, acabou.
(2017)
Tento nao comecar esse texto com "não". Mas não é fácil. A negação está encrustrada na minha cabeça, como uma planta em simbiose, se alimentando da minha energia vital.

Eu queria, agora, estar sentada numa pedra na beira da praia, ouvindo as ondas quebrando e o céu, acima, dum azul que irradia, sendo nosso teto.

Queria ficar assim por horas, sentindo um cafuné e podendo agradecer simplesmente por estar viva, respirando, naquele lugar abençoado.

Eu queria pegar um clássico e devorar suas páginas sem preocupações maiores, saboreando a geniosidade de autores que me fazem me sentir bem só de perceber que o sol que o iluminou é o mesmo que me aquece.

Eu queria olhar pras nuvens se movimentando, talvez entendendo como funcionam suas moléculas, talvez imaginando o trajeto da chuva que cedo ou tarde nos molharia, talvez não pensando em absolutamente nada.

Eu queria olhar pros olhos que me olham e sorrir, amando o prazer de estarmos juntos, dividindo os mesmos sabores. Sentir juntos. Amar juntos. Regozijar juntos. Gozar juntos. Devanear juntos. Sonhar juntos. Realizar juntos. Viver juntos.
 
Mas acontece que estou com minha atenção voltada pra realizar um sonho que não tenho, por pessoas que não sou eu, fazendo o que não amo, porque vivo nesse mundo e não tenho opção.

E os olhos que eu queria que estivessem me olhando, para que olhássemos juntos pro mesmo rumo, procura por alguém socialmente "correta", que segue todos os padrões "corretos", que tem pensamentos "corretos" e que, talvez, o faça "corretamente" feliz.

Fazer o outro feliz e ser felizes juntos são coisas totalmente diferentes. Mas um dia se aprende. Eu mesma demorei e nem sei se aprendi, mesmo.

Mas é vida que segue.

E meus quereres permanecerão inertes, porque sim.

(10/17)