terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Ana olhava a rua pela janela, com o café nas mãos. Sentiu os primeiros raios de sol a aquecer sua tez, no frio úmido do inverno que chegava. Percebeu que José se movia na cama e virou-se, silenciosamente. Suas curvas deram a ele a sensação de que ainda sonhava.

Ela murmurou que precisava ir. Ele permaneceu calado.

Nua, descalça, cabelos desarrumados, ela caminhou na direção da porta. José olhava, intrigado, desconfiado, angustiado. Ela continuava, passo após passo. A xícara foi deixada no aparador. Rosto olhando para o céu, o peito estufado. Ela caminhava. Respirações profundas ritmavam o momento, em ambos corpos.

Atordoado, José sorriu. Perguntou de suas roupas, de seu calçado, de seu cabelo. Já passando pela porta, ela disse que não importava. José não quis perguntar mais, mas pensou em sua própria pele, em seu sangue, em seu suor. A conclusão era lógica. A importância era a mesma.  

Ana saiu, ganhando o corredor, a calçada, a rua, o mundo. José a observava pela mesma janela na qual a silhueta de Ana outrora o inspirara. Precisaria expirá-la imediatamente, percebeu.

Ana caminhava em linha reta. Continuou – desprendida do chão, da vida, do universo. Passo após passo, ganhava o mundo, a calçada, o corredor. Perdia José.

Paralisado, José precisava que paralisasse todo o resto – o tempo, o pulso, a respiração. Não queria expirá-la. Não deveria. Não podia. Não permitiria.

Saltou da janela e a alcançou – nua, frágil, vulnerável – em meio ao caos do mundo já ganhado.

José tirou a blusa e, no avesso, vestiu Ana. Ao sentir-se aquecida, tornou-se ainda mais vulnerável - agora a ele. 

Com a paciência de quem faz entender que não se tiram flores da terra, José lhe explicou, baixinho, que o que não pesava deveria não pesar para o sim e para o não. Que se ela poderia ir por não se importar, poderia ficar por não se importar. Que se ela poderia não viver por ter o nada, poderia viver pelo mesmo nada. Tentasse. Ele tentou. Ana sentiu, de súbito, sua alma revirar. Assentiu.

A oração evaporava dos seus poros: esteja, Ana. Esteja, simplesmente. Onde quer que seja, pelo tudo ou pelo nada, esteja.  

(Mensagem a uma amiga e a outros tantos - estejam.)

Bia tinha uma tendência estranha de sempre desaparecer pelo outro, permitindo-o surgir em sua mais ousada pose e caminhar linearmente em sua egoística vida. O outro aumentava, se traduzia, se moldava, enquanto Bia servia, assistia, se adequava. Ao final de tempos, ela ganhava transparência, se tornando invisível, até que lhe restava tão somente a sombra do outro, misturado com sua sobra.

Inesperadamente, Leo surgiu. Apareceu para Bia, como mato que brota, sem ninguém plantar. Tão fugaz, que não lhe deu tempo para que deixasse de ser Bia, para que se adequasse e lhe lhe servisse. Tão repentino, que não deu a ela subsídios para entender do que ele precisaria para ficar. Tão urgente que sequer cogitaram pousar ou transitar. Apenas eram.

Leo servia de si para si – parece (Bia não teve tempo, repito, também, de analisar se ele era como erva daninha ou se (lhe) traria flor). Com ele, que não precisava nem pretendia, podendo ser, Bia era. Era sujeito, vontades e ação. Bia era afirmativa e negação. Era cheiros, gostos, sentidos, prazeres. Era objeto – porque assim queria, e não porque tinha que ser (a diferença é tênue, mas fundamental).

O perecível é o complemento que os deixavam ser quem quisessem – Bia e Leo, sem o “dever ser” de coisa alguma, nem mesmo eles em essência. Nenhuma tentativa vã de trocas com intenções diversas do mero desejo de darem e receberem sorrisos e suspiros gratuitos. A gratuidade era o presente e o presente era graça. O amanhã era esquecido, sem a obrigação de tornar perene, o hoje.
  
A fugacidade é grito. É presença e é ausência. É o ponteiro que se move imperceptível. É ligeiro a ponto de doer; mas é também a ponto de flutuar, leve. Leo trazia para Bia – e Bia para Leo – o negativo do “dever ser” e sua lascividade imperiosamente excitante.

Inexistindo o amanhã, apenas não existirá o que nunca existiu, e Bia sentia-se abraçada por esse incontrolável nada. Percebendo a transitoriedade de Leo, Bia quis o hoje. Quis o hoje mortal, dia após dia. A eternidade, tão natural em Bia, calou-se.

Fenômeno tão inexistente quanto o tempo, Leo sublimava sua própria existência. Quis a morte do hoje e sua reaparição amanhã. Amanhã, não. Outro dia. Fosse quando fosse, sabia, queria, quereria e não se resignaria. O tempo não o intimidava - tinham a mesma natureza volátil, irrequieto e envolvente.

Uma realidade paralela, ilimitada e interrogativa os cercou e a transigência entre eles tornou perene seus agoras – incontáveis – ainda que em pensamento e energia.


E assim, não sendo obrigados, o futuro também não. 

domingo, 14 de janeiro de 2018

José suspirou, aliviado. Fechou os olhos e relembrou o momento insano, em que Ana estendeu os braços e subiu, rumo à lua. Viu seus pés saindo do chão. Viu seu corpo magro volitar. Viu seu vestido vermelho bailando no ar. Se lhe contassem, ele mesmo nao acreditaria. Mas viu.

Bastou aquele momento para entender que mágicas não existem. O universo não conversa por sinais. Os seres humanos nao seguem regras naturais.

Entendeu que afinidades não movem pessoas. Que atração física é mera carne. Que as borboletas no estômago sao apenas criação de gente que as alimenta.

Ao ver Ana partir, José ficou um pouco mais cético. Aquela primeira foto que viu dela, antes de conhece-la, em que a reconheceu de algum lugar, era só sua alma tramando com a alma dela um atalho para se encontrarem. E nada mais.

Ana subiu. Subiu tanto que, em dado momento, desapareceu. José vestiu sua blusa, colocou seu chapéu e voltou a ser um mero mortal, mal protagonizando, agora, sua própria vida.

Um dia, viu um clarão no céu. Imaginou ser Ana e olhou para cima, sem perceber que a calçada terminava e começava a rua. Assim Ana magicamente o reencontrou, em algum lugar desse mudo universo, que não aqui.

(02.01.18)
Ana chegou. José a guardava, ansioso. Ela o procuraria a qualquer momento. Olhava o celular a cada minuto. Bisbilhotava o celular inutilmente, a cada minuto. Ela nao o procurara.

José compreendeu que tudo estava terminado. Olhou para sua vida e sorriu. Tinha tudo. Estava bem acompanhado de quem, até ontem acreditava ser o amor de sua vida. Mas o que, então, o incomodava? Por que a indiferença de Ana o angustiava? Fechou os olhos, respirou fundo.

Em sua caminhada na praia, passou por ela. Nao tinha certeza, mas parecia ser ela. Volveu o caminho para confirmar. Ela estava mais linda do que nunca. Sentiu-se sufocar.
Celular nas maos, a chamou. Ela sorriu. Acenou com a educação de quem nao sente.


Acabou, percebeu José. Por hoje, acabou.
(2017)
Tento nao comecar esse texto com "não". Mas não é fácil. A negação está encrustrada na minha cabeça, como uma planta em simbiose, se alimentando da minha energia vital.

Eu queria, agora, estar sentada numa pedra na beira da praia, ouvindo as ondas quebrando e o céu, acima, dum azul que irradia, sendo nosso teto.

Queria ficar assim por horas, sentindo um cafuné e podendo agradecer simplesmente por estar viva, respirando, naquele lugar abençoado.

Eu queria pegar um clássico e devorar suas páginas sem preocupações maiores, saboreando a geniosidade de autores que me fazem me sentir bem só de perceber que o sol que o iluminou é o mesmo que me aquece.

Eu queria olhar pras nuvens se movimentando, talvez entendendo como funcionam suas moléculas, talvez imaginando o trajeto da chuva que cedo ou tarde nos molharia, talvez não pensando em absolutamente nada.

Eu queria olhar pros olhos que me olham e sorrir, amando o prazer de estarmos juntos, dividindo os mesmos sabores. Sentir juntos. Amar juntos. Regozijar juntos. Gozar juntos. Devanear juntos. Sonhar juntos. Realizar juntos. Viver juntos.
 
Mas acontece que estou com minha atenção voltada pra realizar um sonho que não tenho, por pessoas que não sou eu, fazendo o que não amo, porque vivo nesse mundo e não tenho opção.

E os olhos que eu queria que estivessem me olhando, para que olhássemos juntos pro mesmo rumo, procura por alguém socialmente "correta", que segue todos os padrões "corretos", que tem pensamentos "corretos" e que, talvez, o faça "corretamente" feliz.

Fazer o outro feliz e ser felizes juntos são coisas totalmente diferentes. Mas um dia se aprende. Eu mesma demorei e nem sei se aprendi, mesmo.

Mas é vida que segue.

E meus quereres permanecerão inertes, porque sim.

(10/17)
Nossas mãos

Se tínhamos um motivo para nos reencontrarmos? Pq nao o simples reencontro?
 
Nao tenho duvidas de que nossas vidas ja foram muito mais unidas, que em algum momento de nossas existencias nossos corações se confortaram um ao outro. Nao tenho duvidas de que nossos lábios ja se uniram antes, com a mesma força, calma e desespero que agora.

Compreender que, embora tenhamos dividas a saldar um com o outro, nosso amor nos libera delas é reconfortante.

Agradeço hj pq somos o que devemos ser. Sinto nao poder toca-lo todos os dias mais, mas sei que temos outros assuntos a resolver.

E se um dia, ainda, juntos nos encontrarmos, será para gozarmos de sentimentos bons, e nao para estragarmos nossos restos de vida.
(04/17)
Sinto um sopro no meu rosto.
Fecho os olhos e percebo que o agora é novo.

Abro os olhos, feliz. Você ficou no ontem.

Dou dois passos. Vou almoçar com outro alguém e ele escolhe nosso restaurante. Entre as 375 mesas disponiveis, ele escolhe a nossa, onde nossas mãos esquerdas se entrelaçavam  enquanto as direitas seguravam os copos. Sua presença é tão densa, que te procuro; preciso me certificar que estou só.

A noite cai e uma amiga me visita. Ela me apresenta um trecho de um livro cujo autor tem seu nome. O texto fala de amores passados.

Escuto uma musica vinda do apartamento do vizinho, que acompanha minha leitura. É, justamente, a nossa musica.

Olho para os lados novamente, porque preciso me certificar que estou só. Sim, confirmo.

Deixe-me dormir, agora.
(04/2016)