quinta-feira, 20 de abril de 2017

Caminho tranquilamente.
Um pé após o outro.
Calma, inspiro. Calma, expiro.
Segurança e leveza.
Abaixo, carros passando de um lado ao outro.
Do outro, ao lado.
Minúsculos, tão próximos do chão.
Estendo os braços e o vento me abraça.
Fecho os olhos e sinto o ar.
Sou próxima do céu, longe do infinito.
Tão finita!
Caminho sobre o estreito muro
que me separa do resto do mundo.
Não quero voltar.
Não quero saltar.
Deixa-me aqui, só mais um pouquinho.
Daqui te vejo, te sinto, te quero.
Daqui te sorrio, embora você não veja.
Me deixe aqui, só mais um tantinho.
Daqui, finjo que não te vejo.
Daqui, finjo que te esqueço.
Daqui, um pé após o outro.
Um dia eu subo.
Ou desço.
Não hoje. Hoje não.

frô

quarta-feira, 29 de março de 2017

Acordei insone. Chequei o celular e me deparei com uma mensagem sua, com um anexo. 

Não tive como não sorrir. 

Pensei na vida, nas nossas vidas. Pensei no significado da expressão que tanto já usamos na infancia: "nós quatro".

De um jeito ou de outro, acabamos por reepti-la em nossos próprios núcleos familiares. Ainda assim, nesse momento, senti que o "nosso" "nós quatro" ainda existe, porque me senti parte desse anexo, dessa conquista.

Pensei então em tudo o que passamos de mais importante nos ultimo quinze, vinte anos. Nos casamentos, nos divórcios, no encontros e reencontros. Nos nascimentos, 
nas mortes, nos distanciamentos e nas reuniões. Pensei principalmente nas escolhas e nos fatos em que a escolha não nos foi possível. 

Lembrei de Nietzsche, um filósofo alemão nascido em 1844, que presenteou-nos com sua teoria do "eterno retorno". Esse gênio pensou e falou muito sobre vida e morte, sobre 
sociedade, felicidade e religiosidade. É autor de obras clássicas como Assim Falou Zaratustra e Crepúsculo dos Ídolos. 

Em seus trabalhos, abordando a vida e o além-vida, teorizou sobre a necessidade de vivermos como se, após os nossos fins, rebobinássemos nossa fita e começássemos novamente. Tudo de novo. Vou repetir. Tu-do-de-no-vo.

Agora pense. Como se sentiria?

Na primeira vez que tive contato com essa brincadeira, imaginei minha vida como um eletrocardigrama. Até aquele momento, só havia felicidades e poucos momentos negativos. Ah, sim! É necessário lembrar que meu prematuro contato com a filosofia ocorreu graças a você, que me presenteou com o livro "O mundo de Sofia" (com dedicatória e tudo) quando você foi prestar vestibular e essa obra fazia parte do rol de leituras obrigatórias. Sim. O vestibulando era você; você tinha que ler; mas me deu o livro de aniversário, me ensinando que temos que presentear quem nos é próximo com objetos que nos podem ser úteis.

Pois bem, voltando ao eterno retorno, hoje, ao analisar minha vida, ainda, como a um eletrocardiograma, vejo nítidos altos e baixos. As tristezas, perdas, depressões, questionamentos, angústias e medos enfeitaram bastante meus últimos anos. Mas também as conquistas e as alegrias fizeram parte deles. E se paro pra pensar de fato,
de forma realista, percebo que consigo visualizar facilmente os picos negativos, mas quanto aos positivos, em verdade, considerando os fatos somente, foram poucos. 

Para muitos de nós, é inconteste que as grandes alegrias se limitaram a um casamento, nascimento dos filhos, aprovação em um concurso ou conquista de um diploma. Ou seja, é preciso que o fato seja grandioso para marcar positivamente nossas vidas. Requisito que não é exigido dos momentos ruins. Um "pé na bunda" pode nos fazer sofrer por mais tempo do que duraria a felicidade da conquista de um emprego.

Contudo, vejo que tenho levado uma vida relativamente feliz. Não sou uma pessoa pessimista, embora me considere realista. Ora, como explicar, então, que mesmo com poucos fatos que marcaram positivamente minha vida, consigo me manter, nesse eletro, na maior parte dos rabiscos, acima do ponto neutro?

Acredito que muitos dos traços positivos de meu "eletrovida" se devam a minha obsessão em sentir o pensar e pensar o sentir. 

A consciência da vida me traz a calma, a resignação e a resiliência necessárias para sorrir. Muitos dos fatos que preencheram nossas vidas simplesmente aconteceram, ou porque tinham que acontecer ou porque colhemos frutos de escolhas distantes, mas não porque queríamos que assim fossem. Nos resta a bela escolha, então, de como encará-los e vivê-los. Não é "o que"; é "como". 

Me pergunto se seria prazeroso chegar ao final da vida e me deparar com um filósofo bigodudo, de braços cruzados, olhando e rindo da minha cara, dizendo "Lembra da brincadeira do eterno retorno? Vamos rebobinar sua fita!"

Talvez eu encarasse esse momento com a bravura que me é própria. Na verdade, penso mesmo é que eu entraria em pânico. Não tenho segurança se conseguiria repetir a proeza de ler minha vida com carinho, amor e entusiasmo de outrora. 

Por isso tudo, queria que, desse momento em diate, você se lembrasse sempre da "brincadeira do eterno retorno". Viva como se fosse viver tudo de novo, depois de tudo vivido. 

Muitos altos e baixos virão nessa nova etapa de sua vida. 

Um exemplo que pode ser seguido é São Francisco de Assis. Ele não foi especial apenas por renegar o luxo para viver com simplicidade. Ele desejou, acima de tudo, ser útil. Sua oração pede que seja instrumento de Deus. Penso que você tem todo o potencial e conteúdo para o mesmo, de modo que sua caminhada seja repleta de felicidade, ainda que encontre vários obstáculos em sua trilha.  

Acredito que a profissão pela qual você resolveu enveredar lhe trará uma evolução espiritual, portanto interna, inimaginável e, nesse sentido, dependerá somente de você transformar todo o potencial de vida em vida de qualidade.

Transforme toda perda em sentimento ameno; toda conquista em regozijo; toda dor em aprendizado; toda ferida em lembrança; toda doença em lição; toda lágrima em gratidão. Multiplique o amor e os sorrisos com a bondade que você tem carrega. Realize seus sonhos com a perseverança que lhe é característica, em prol daqueles que te rodeiam.

Que a oração de São Francisco seja verdade em sua vida.

Seja entre os que te procuram, a luz que ameniza a escuridão. 

Parabéns pela sua conquista!

Com carinho, para o Dr. Ronaldo (vulgo Dr. Maninho, exclusivamente para mim).

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017
















Sou soma dos meus momentos.
Mas ultimamente, confesso,
tenho sido soma dos nossos.
Confesso, ainda, que sei que “nossos”,
não significa meus e seus, juntos.
“Nossos” são os meus - só meus - e os seus - só seus,
Se-pa-ra-da-men-te.
Mas são nossos
porque a gente decidiu que assim fossem.
Decidiu, não, permitiu.
Principalmente os seus, que tem sido
tão intensos, que parecem não caberem dentro de você.
Tão singulares, que parecem terem sido escritos
Por um autor muito criativo, exclusivamente pra você.
Tão doloridos, que te atingem sem que você saiba
Nem de onde, nem como, nem por que.
Tão estranhamente felizes, que te lançam sorrisos fugazes,
fortuitos, futuros, fadados.
Tão bagunçados, que seu silêncio se torna alvoroço.
Tão frágeis, que devem ser tocados com cuidado, com a alma,
Pra não macular.
Tão molhados, sujos, singelos, puros,
Inapropriados...
...tão intimamente meus.

(frô)

quarta-feira, 28 de setembro de 2016



Agarrei nossos lençóis com as duas mãos, alma e sonhos. Repentinamente, percebi que eram só lençóis. Lençóis com nosso cheiro. Nada mais. Soltei.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016



José vestiu-se rapidamente. Olhou para Ana, que ainda dormia. Aproximou-se de seu corpo e sentiu seu cheiro. Um perfume suave que lembrava terra e ar. Lembrava abrigo mas, antes, perigo. Ali estava absolutamente tudo o que José temia e evitava. Estava tudo o que José desejava e aceitara. Sabia que a reciprocidade era certa, mas faltava a cumplicidade. Ana já estava resolvida com seus limites intransponíveis. O desejava e o amava, mas acima disso, o temia e o evitava. José, então, afastou-se silenciosamente. Era o melhor a fazer. Era o que lhe restava. 

Desperta pelo tempo, Ana abriu os olhos. Percebendo a ausência de José, procurou ao redor, confirmando que ele já não se encontrava. Vestiu-se com a calma de quem não compreende o que se passa. Antes de sair, porém, deparou-se com um espelho. Seus cabelos estavam cumpridos e seus olhos, fundos, profundos. Não sabia quanto tempo havia se passado. Lembrava-se de José e se perguntava porque não a acordara. Nada havia o que fazer naquele quarto. Ganhou a rua.

Os primeiros cinco metros foram conquistados com facilidade. Avançando, perdeu os sentidos. Abaixou-se e inspirou todo o ar que lhe cabia. Um vento gelado afagou-lhe o rosto. Pés no chão, sentia-se volitar e isso a incomodava. Tentava caminhar, mas parecia flutuar. O ar dos pulmões desapareceu e na multidão buscou ajuda. Do outro lado da rua, seus olhos pararam numa silhueta conhecida. O olhar era amistoso e o sorriso, radiante, embora não a visse. Gritou o nome que lhe veio à mente, mas ele não ouviu. Antes, continuou caminhando na direção oposta. Ana gritou mais alto. José continuou seu caminhar. 

Juntando as forças que lhe restavam, equilibrando-se sobre o chão que não sentia, Ana levantou-se e caminhou para alcança-lo, pela calçada oposta, chamando seu nome. José continuava com seu andar tranquilo, sem nada escutar. Ana percebeu que, pela distância em que se encontravam, ele não a ouviria. Cogitou atravessar a rua, mas seus pés estavam inseguros, tanto pela sensação de volitação quanto pela indecisão.

José entrou numa loja de flores. Ana o observava e pensava que talvez fosse a hora de o alcançar. Colocou o primeiro pé no asfalto quente, e entre um carro e outro, ganhava centímetro a centímetro. Parou, ao perceber que José saia da loja com uma única rosa nas mãos.

Um carro que vinha a toda velocidade deparou-se com o corpo frágil de Ana. Os pneus deixaram marcas no asfalto.

Voltando-se para o estridente som da parada brusca, José viu Ana de pé, paralisada, vestido tocando o para-choques do carro, fitando-o desesperadamente. Trêmulo, ele correu em sua direção. Segurou sua mão delicadamente e delicadamente respirou seu ar. A cumplicidade que lhes faltava dançava entre seus poros.

Suas mãos devolveram a Ana o caminhar seguro e, juntos, silenciosamente, percorreram o resto do percurso que um dia haviam planejado.

Não se contou o tempo ou o espaço que os separaram. Sabe-se apenas que foi o suficiente para tornar suas mãos tenazes o bastante para enfrentarem juntos todas as intempéries, conquistas, lágrimas, aventuras e felicidade vindouras.  

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Te vejo mais distante, dia após dia. 
Meu peito se alivia,
ante sua recente ausência.

Na memória até então presente, 
sua imagem foi perdendo, primeiro, o brilho. 
Perdeu a nitidez.

Agora, você perde as cores 
e vai ficando cada vez mais rarefeito.
Mal te vejo. 

Estranhamente, embora aliviada, me dói.
Embora agora possa respirar,
Dói na minha alma te perder.

Não você, na verdade. 
Na verdade, você eu nunca tive. 
Perco aquilo que de você guardo. Guardava.

Grito em meu silêncio, 
desesperada. 
Não quero perdê-lo. 

Agarro-o com minhas mãos, 
mas você me escapa, 
como pontos volitando no universo

Te peço que fique. 
Você implora que não permita que você desapareça. 
Enquanto eu te imploro que não permita que eu te deixe. 

Mas nossas vontades se perdem no ar. 
Você querendo ficar - eu querendo que fique.
Mas eu fico. Você vai.




terça-feira, 2 de agosto de 2016

Ela e eu

Ela entrou sabe-se la por onde
E circula no meu corpo.
Dói.
Minha carne arde e sinto-a navegando
Sob minha pele.
Sufoca-me por completo,
Constringe minhas veias,
Contorce meus músculos.
E não acaba.
Ah, me regozijaria o final
Sentiria meu peso
Se desprender do meu corpo
E minha alma a volitar.
Ela poderia ficar nessa carne
Áspera e quente.
Que se alimentasse de cada célula
E logo não restaria absolutamente nada.
Um verme que destrói a alma
Poderia muito bem destruir a matéria.
Sinto-a ainda dentro de mim.
Adormeceu.
Em frente, avanço.
Um dia de cada vez.
Até que eu levante a cabeça
Em direção à luz sem cor
E pergunte, intrigada, novamente,

Aonde vamos, eu e ela?