sexta-feira, 27 de março de 2015


Momento Selfie

Friso que o presente não é uma crítica. Antes, pretendo que o enxerguem como um convite a pequenas viagens. 

A fotografia tirada de si mesmo, selfie, caiu no gosto do mundo. Eu, sempre que posso, ouso algumas poses.  

Nas redes sociais vejo mais selfies do que qualquer outra coisa. Todos querem registrar momentos, deixando bem claro que estavam la ou que estavam acompanhados de fulano ou ciclano, normalmente gente por quem se nutre alguma consideração. 

Hoje, porém, vi uma cena que me fez refletir. Uma garota aguardava atendimento no órgão em que trabalho. Sentada numa daquelas cadeiras de recepção, levantou o braço com o celular na mão. Fez biquinho. Depois, virou um pouco o rosto e estreitou os olhos, na tentativa de uma foto de "quase perfil". Jogou o cabelo todo para um lado. Acho que ela pretendia uma pose sexy. Só acho. Confesso que fiquei olhando com cara de curiosa, ou coisa pior. Não achei aquela cena nada sexy.

Dai em diante, não consigo segurar minha imaginação. A cada selfie que vejo, penso em como foi o momento daquele clique.

Repiso que não pretendo fazer chacota das fotografias e do modismo que, aliás, eu mesma aderi. Não estou criticando o resultado, a fotografia de si mesmo, nem tampouco a possível vaidade ou narcisismo embutido ou o simples desejo de compartilhar. Estou, ou pretendo estar, desenhando pontinhos de interrogação sobre o momento em que aquela fotografia foi tirada. Estou convidando a imaginar toda a situação daquele instante. Falo de tempo, não de matéria. 

Se algumas selfies sequer nos lembrem serem selfies, porque todo o contexto nos transmite o registro de um local, de um momento ou de um estado pessoal que parecem justificar você, segurando seu aparelho fotográfico, você clicando e você aparecendo, há outras que nos forçam a imaginação. Eu mesma já tirei fotos minhas com uma parede branca ao fundo. Quis mostrar minha felicidade, minha identidade. Mas admito que, lembrando, eu devia parecer meio retardada pra quem me visse. Não é atoa que as cliquei sozinha. 

A despeito do momento poder ser, de certa forma, digno de vários adjetivos (bons ou nem tanto), acho que nunca reparamos mais em nós mesmos como agora. Nossos defeitos e qualidades faciais têm sido milimetricamente analisados por nós, por nosso self. Já ouvi comentários como "fica do lado de ca porque meu ângulo bom é o da esquerda" ou "tira de cima pra baixo porque meu nariz sempre sai estranho se tirada de frente". Somos autoanalisados fisicamente a cada selfie tirada e publicada.

Então, imagino algumas poses solitárias, segurando o celular e o sorriso até conseguirem clicar no lugar certo, apertar o botão certo na distância certa e, ainda, buscando encontrar o ângulo certo, em segundos que parecem durar minutos, em "n" tentativas de desvendar o melhor de si mesmas. Imagino a foto com a cozinha ao fundo, deitado na cama olhando pro teto, na academia, dentro do carro, no elevador, na garagem, na varanda, na mesa do trabalho ou mesmo no banheiro. Como se chegou àquela imagem? O que se pensava? O que se intencionava? O que se enxergava? E a visão isolada da pessoa com a câmera na mão e sua própria análise daquela imagem estranhamente imaginável? Como se dá a autoanálise psíquica daquele momento? Incrível como dentro de cada selfie existe um mundo inteiro nos convidando silenciosamente para ser imaginado!

Talvez, depois de ler isso, você viaje a cada selfie vista ou, ainda, nunca mais queria tirar outra.

(frô - 03/2015)

sexta-feira, 20 de março de 2015



Dia desses recebi uma carta. Na verdade, era uma mensagem de texto, mas a recebi como carta em virtude de seu denso e elaborado conteúdo. Na verdade, mesmo, era tudo muito lindo para que eu não a considerasse uma carta (já que a carta parece ocupar um nível muito superior ao da mensagem de texto, na escala dos documentos líricos poéticos, DLP).

Tentei ser concisa na resposta que sequer foi pedida. Mas você sabe, não sou. 

Nossa amizade é gratuita e sabemos que algo flui entre nós. São flores, chuvas, mares. Talvez notas musicais, fé.  

Nosso amor é único, antigo. Não é paixão estrondosa, amor vermelho. É uma vontade simples de estar junto. Um junto que não é grudado, não é alcoólico, não é carne, não é perdido. Se é, nunca o permiti(re)mos. É ciente, contudo. Aquela certeza que a gente tem, sabe (sim, você sabe!), que sempre estaremos perto, ainda que não. É aquela mão que quando você fecha os olhos, vê e sente porque se juntos, sua mão estaria segura na minha.

Nossa intimidade excessiva parece que veio de algum lugar antes do verbo. Antes de olhares e mãos tocadas. Nossa intimidade, parece, sempre existiu. Sei que esse excesso te faz sentir algo estranho ao mundo, algo tão puro que não ousamos verbalizar. Mas te digo que excessos assim só são o que são por serem excessos. Se não o fossem, seríamos amigos como outros quaisquer. 

Nasce ela, a intimidade, menos da invasão e mais do convite. Menos da aceitação ao convite e mais da naturalidade, como uma criança que adentra à casa do vizinho, como se fosse extensão da sua própria.

Meu eu mais frágil, vulnerável, feminino e almático já se acostumou com a nudez ao seu olho nu. Suas pequenas e rasas aproximações (luneta, binóculo ou frases diretas) já não me assustam.

Quanto aos seus questionamentos, respondo, sem qualquer segurança, que sim, a culpa é toda minha. Sou uma devassa de mim. 

E sim, a culpa é sua, por esquecer que minha casa não é sua, embora vizinha. Por esquecer que minhas janelas servem para que eu possa ver o mundo. Elas não deveriam te servir. Mas sei que você nunca se esqueceu disso.

Por fim, declaro que a culpa é nossa e é nossa também a sina que nos cuidemos assim, a uma distância segura. Talvez por destino ou simplesmente pelo fato dessa coisa que nos une ser tão singela e leve; tão mais antiga que nós.

(frô)

A carta 

Hj me sinto tão íntimo seu... depois de ler tanto suas histórias, me senti porém inconvenientemente íntimo. É como se eu morasse em um prédio à frente do seu e tivesse uma luneta de raio-x. Vi até por debaixo das suas roupas. E depois de tanto te ver, me tornei um obcecado, pois quanto mais se vê (lê) mais se atiça a curiosidade. E mais! É como se vc soubesse da minha obsessão. Vc me flagra fitando e contraditoriamente abre as cortinas. O que me intriga é pq ainda assim, com vc escancarando seu eu, continuo sentindo que lhe invadi. Envergonhado até. Pq? Reflexão. Resultado: 1) a culpa é sua, vc é uma devassa de si; 2) a culpa é sua, vc escreve pensando que só lê quem não lhe conhece; 3) a culpa é minha, vc estava só respondendo pra si mesma a pergunta "vc é livre?"; 4) a culpa é minha, tenho um excesso de zelo por vc. Bom, independentemente da resposta, não adianta mais. Para um obcecado inofensivo como eu, não precisa de tratamento de choque, basta doses regulares de vc. Ainda que seja por meio de uma luneta de raio-x.

(um amigo)




sábado, 14 de março de 2015


“Não dá mais”, concluiu Ana, fria e inatingível. José a fitava silenciosamente. Ela virou as costas e saiu. No caminho para casa, avistou uma floricultura. Comprou um cacto.
Ao chegar, encarou a rosa que José lhe dera no dia anterior, flutuando numa garrafa escura. Aquele era um costume que ele mantinha desde que se conheceram: entregava-lhe uma flor quando se encontravam, sempre. Ela recebia e a encostava em qualquer lugar. Na primeira oportunidade, José a resgatava e a acolhia numa garrafa com água.
Ana nunca entendia o porquê de José insistir naquilo. Ana era prática, racional. Por vezes, áspera. O destino daquela flor era morrer. Cedo ou tarde. Numa garrafa ou num plástico, embrulhada. Pra quê estender aquela vida insignificante, patética (como, aliás, o mundo inteiro lhe parecia)?
Ana acreditava que tudo devia seguir seu curso natural: seres humanos são poligâmicos; por que insistiria na fidelidade? Seres humanos necessitam criar seres superiores para terem em quem se apoiar, embora nunca se provara a existência de qualquer divindade; aceitar a fraqueza humana era o caminho mais fácil para a vida. Não rezava, já que tudo aconteceria como deveria acontecer, ela querendo ou não, rezando ou não. Seres humanos são egoístas e medíocres (o que a incluía); por que esperar amores perfeitos de seres imperfeitos? Pra quê sonhar, se sonho e realidade jamais se tocariam!?
Desfazendo-se da garrafa, com água e flor, substituiu-a pelo cacto. Era bonito, verde, não exigiria cuidados e viveria por mais que dois dias. A insignificância era a mesma, aliás. 
Ana tinha a mania de resumir a existência de todo e qualquer ser: a flor, o cacto, José. Ela mesma. Naquele momento, Ana resumia o cacto a algo quase inexistente e à flor, totalmente, assim como José. Ela apenas assistia ao mundo.
Cansada de tantas lamúrias alheias, adormeceu jogada em sua cama, encarando o cacto que se portava silencioso e tímido no criado mudo.
Ao acordar, uma misteriosa rosa do deserto a encarava, em substituição ao cacto.
Assustada, leu o cartão que pendia da flor: “Não deixe de ser rosa para ser cacto. Na impossibilidade de ser frágil, torne-se a mais bela, resistente e imponente rosa, nesse deserto de áridas almas humanas. Prolongar uma vida só até amanhã pode ser suficiente, já que 'amanhã' pode ser muito tempo!"
Ele manteve o hábito, apesar de. 
Desse dia em diante, milagrosamente, aquelas flores foram transformando algo em Ana, que passou a cuidar das rosas que lhe enviavam silenciosamente. Colombianas, rugosas, virginianas... e, claro, aquela rosa do deserto, Adenium Obesumque sobrevivia às intempéries ostentando, também milagrosamente, a singeleza e a beleza, inerente a toda rosa.
Ao sentir o primeiro murchar de uma de suas flores, sentiu tristeza. Sentiu "a" tristeza. Ao ver o primeiro desabrochar, sentiu a felicidade invadir seu rosto, num sorriso singelo. Ao ver as cores que as flores exprimiam em seu curto existir, Ana ficava contente. Quando se sentia triste, o perfume exalado a fazia se acalmar. Aos poucos, permitia-se compreender e sentir a efemeridade, com seu começo, meio e seu fim. 
Deixou um cartão com o entregador das flores: "Por favor, que a próxima venha num vaso com terra! Não suporto mais vê-las, tão frágeis e belas, morrerem em minhas mãos impotentes!"
Recebeu, então, um vaso, aparentemente vazio. Olhos arregalados e sobrancelhas arqueadas, agradeceu ao entregador. Um cartão cravado na terra dizia, apenas: "Paciência, amor, paciência!"
Com paciência, amor e paciência, Ana aprendeu a cultivar suas rosas, proporcionando-lhes seguidos amanhãs. 
Com paciência, zelo e dedicação, aguardou ansiosamente nascer daquele vaso mais uma bela rosa do deserto.

Com paciência, amor e esperança, aprendeu que todo o esforço para ver nascer mais um "amanhã" era glorioso.

Com José, aprendeu que "amanhã" podia ser muito, muito tempo.

terça-feira, 10 de março de 2015


Ainda não sei. Não sei se, em fim, você vai ser tão somente um mar de ressaca. Não sei se foi só um vento forte que passou, fez um baita estrago e também trouxe sensações únicas, que antes de nós não existiam sequer no rol humanamente conhecido.
Não sei, ainda, se você vai ser a onda que demole todo um castelo de ideais, toda vez que chega – e chega sempre, e vai e chega, e vai. E depois que estraga tudo, constrói precários sonhos de um único dia em seu lugar. E se for a onda, nesse vai-vem, acaba se estruturando como parte indispensável do mar.
Não sei, amor, se você vai ser a chuva que molha, limpa e evapora para molhar novas terras. Não sei se vai ser o ar que vou respirar daqui pra frente, pra todo o sempre, por alguns anos ou se será a mão fria a me sufocar. Não sei se você foi, se é ou se ainda vai ser. Ainda não sei, meu bem.
E acho que só vou saber com o tempo, porque nem nosso último acordo, de acabar com todo o nada que temos um com o outro, vai resolver. Ainda temos chão a caminhar. Ou chãos.
Meu frágil querer afirma sem qualquer segurança que temos muito a viver, juntos. Mas talvez por toda essa fragilidade sinto, sinto muito, que não viveremos nem esse muito, nem qualquer tanto mais. Mas não sei. Posso estar errada em alimentar tanta descrença, ou não. Minha esperança afirma que estou.
Mas, sabe!? Nunca estive inconsciente de nossos destinos. Infelizmente, minha desesperança era certeira. Só me resta esperar, agora, que nosso fim seja um fim em si mesmo, a nos guiar para novas e abençoadas ventanias.

sexta-feira, 6 de março de 2015

(Sem ilustração - o desconhecido é inilustrável)

Um fora indelével

O conheci por ai. Gostei do seu jeito e, porque não um encontro, uma cerveja numa mesa de bar!?
Gostei do que vi. Risos, teorias, histórias, sonhos, relatos, discussões, planos pro próximo encontro: um cinema, talvez!?
Repentinamente, um fora. "Nosso cinema não vai rolar.."..
A frase soara estranha. Mais correta seria se se dissesse que o cinema não ia rolar ou então que nosso cinema não ia ser nosso. Mas se era nosso, como não!?"
Ante a declaração seca, não pude lutar pelo meu suposto direito a um filme, devidamente bem acompanhada. "Ok", respondi. Todavia, minha curiosa alma feminina não suportou o silêncio. Na voz mais suave que encontrei em meu desafiado e enxotado ser, soltei: "Fiz algo que você não gostou?" e ele me respondeu: "Você me trouxe lembranças..."
A resposta me soou justa, embora não a compreendesse. Eu não tinha subsídios para tanto. E se não a compreendia, tampouco a questionaria, a negaria, relutaria, insistiria. Eu não tinha mais o que perguntar, o que dizer, argumentar ou o que comentar. Naquele momento, me senti incapacitada até mesmo para ter qualquer pensamento sobre o "toco". Decidi esquecer. Sempre fui boa nisso.
Alguns meses se passaram e então ousei recordar. Aquele “fora” se transmutou numa lembrança indelével. Uma lembrança de um momento em que eu trazia lembranças que não eram minhas, relacionadas a pessoas que eu não conhecia.
A resposta àquela pergunta primária – “Fiz algo que você não gostou?” – poderia ter se resumido a um “não”. Eu não havia feito nada. Mas a verdade é que sim; eu carregara comigo algo que não era meu, nunca foi meu. Me senti um tanto torpe, fraudelenta. Uma ladra de sentimentos e sensações que eu sequer sabia o que eram. Eu furtara uma caixinha de lembranças de alguém que não conhecia, sem ter a mínima ideia do que carregava e ainda menos do seu valor. Me senti um tanto Amélie Poulain, com uma caixa de lembranças nas mãos. Só que a minha (tão minha quanto era de Amélie, sua caixa), era lacrada pela cola da ignorância.
Então entendi que ele, o dono, fizera questão de me explicar que eu lhe trazia lembranças, como forma de punição pela minha audácia, irresponsabilidade e culpa por carregar tão desavergonhadamente algo que não me pertencia.
Me senti no ímpeto, então, de me afundar nas especulações. Me permitiria um afogamento sumário num mundo de suposições.
Que tipo de lembranças um ser alheio é capaz de produzir? Não. Não se produziria; se resgataria. Que lembranças são essas, incômodas, doloridas, fugidias? Me permiti pensar, sonhar, imaginar.
Seriam essas lembranças doces, salgadas, azedas? Agridoces, feito molho chinês que deixa criança satisfeita? Seriam perfumadas, com cheiro de flor ou com cheiro de mar? Seriam azuis, púrpuras, furta-cor ou monocromáticas? Seriam foscas ou fluorescentes? Quentes, frias, dormentes?
De toda forma, não sou responsável por elas, mas as trago em mim. Lembranças de gentes que não conheço, que não me permitiram conhecer. Lembranças produzidas por quem nem imagino o sexo. Talvez sejam anjos, talvez demônios. Talvez sequer existam mais.
Senti então meu íntimo cheio de vidas alheias. Lembranças que não tenho, mas carrego na pele, no meu sorriso torto, tão meu que lembra outras pessoas.
Não entendo e nunca vou entender. Nunca vão me explicar, nunca vou perguntar. Minha missão foi apenas essa: carregar as lembranças deles.
Sinto o desprezo, que não é meu. Não sinto mais a sensação do despeito, da exclusão. Sinto, de outra sorte, a perenidade, característica de toda lembrança.
Ela se personificara em mim. Eu me transfigurara nela. Duas desconhecidas, eu e ela. Eu era ela. Talvez ainda seja.
(frô)