terça-feira, 4 de julho de 2017



Tensão Pré-Menstural

Tenho uma TPM do caralh#. Uma semana antes de receber a visita sangrenta, meus dias se nublam. São dias que não espero, mas que avisam quando chegam. Não sabendo o porquê, me ofendo fácil, me isolo fácil, choro fácil. Também insulto e falo o que me arrependerei, fácil.

São dias tão sui generis, que me permito sair da dieta e me entupir de chocolate. Me permito o sanduba gorduroso e dormir mais que deveria. Me permito dizer que estou ocupada demais, quando só quero ficar deitada, esperando o tempo passar. Me permito visualizar e não responder. Me permito ser filha na casa da mãe, sem lavar meu prato, sem colocar o chinelo no canto da porta e fingindo que não é comigo aquela bronca.

Fui ao médico e ele me disse: “Vamos tomar anticoncepcional para controlar essa TPM. Podemos emendar uma cartela na outra para que ela nem apareça!”

Cheguei em casa pensativa. Já fazem quase dois anos que não uso anticoncepcional, por opção. Minha menstruação é regulada, tem dia certo pra chegar e pra se despedir. Algo me diz que eu não devo evitá-la, com todas as suas naturais funções, mas compreendê-la e aprender a lidar com ela.

Aprendi a anotar meus dias de tensão. Percebi que choro mais, e por motivos diversos. Percebi, na verdade, que era o único período do mês que eu chorava; que suporto todos os percalços, remorsos, raivas, receios, tristezas e constrangimentos para, nesse período de extremos, deixar que minhas lágrimas se misturem com a água do chuveiro. O banho ganha, então, outra conotação. Sinto minha pele, minhas curvas. Concentro nos meus pontos de prazer, muito além das zonas erógenas. Sinto o gosto das minhas lágrimas, a textura da saliva. Me sinto.

Essa tensão, que eclode minha sensibilidade, mostra a real dor da violência quando a sofro. Mas mostra também que sobrevivo a ela. Me lembra da minha falta de freio e do meu potencial agressivo. Me ensina o melhor caminho, quando os sentidos estiverem confusos ou intensos: afasta e cala.

Nos meus dias de tensão, quando tudo perde o sentido, procuro Deus, que muitas vezes havia esquecido. Converso com ele e solto minha revolta. Ficamos juntos até adormecer, mesmo sem respostas.

Me sinto só, porque ninguém – ninguém – se sente como eu, naqueles dias. Apenas eu, no mundo inteiro, me sinto num poço isolado, escuro e frio. E se há mais mulheres na mesma situação, estão tão isoladas em seus próprios poços, que continuo assertiva ao dizer da minha unicidade nesse breu. É então que aprendo a segurar na minha própria mão.

São nesses dias, também, que bate a saudade e a carência de tudo. De vida, de pele, de alma. Carência de Deus, de mãe, de pai, de irmão. Carência de amor, de carne, de paixão. Me concentro em cada pessoa que me visita a mente e percebo o quanto suas vidas são suas, e não minhas. Percebo que enquanto estou nesse escuro, cada um está respirando seu próprio ar, fazendo seu próprio trabalho, reclamando seus próprios direitos, lutando com seus próprios adversários. Percebo o quanto o contato, o carinho e a presença são gratuitamente caros, raros. Percebo que um abraço dado naquele amor deveria nunca acabar. Percebo que meu coração se mantém ligado aos corações dos meus pais, apesar de tudo isso. E particularmente pra mim, que tenho filhos, são nesses momentos de tensão que sinto o calor de cada um deles, a textura da pele e o cheiro do cabelo.

Nesses momentos de tensão, aprendo a sentir com mais sentido, a amar com mais amor, a lembrar com mais ternura, a lidar com mais respeito. Essa tensão nada mais é que a natureza, nos lembrando de quem somos! Aceitá-la, parece, é aceitar a mim mesma.

(frô)




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